terça-feira, 14 de outubro de 2014

O impacto de uma grande experiência

A notícia da conversão dos gentios mexeu com a igreja judaica. Tanto os apóstolos como os demais irmãos em Jerusalém foram impactados por essa informação. Logo que Pedro retornou à sua base, em Jerusalém, os membros da igreja que eram do grupo da circuncisão o interpelaram.

O problema deles não era tanto o evangelho, mas a cultura. Não estavam chocados pelo fato de Cornélio e sua casa receberem a Palavra de Deus, nem mesmo pelo fato de terem recebido o Espírito Santo, mas pelo fato de Pedro ter entrado na casa de um gentio e ter comido com ele.

As barreiras culturais estavam ainda muito firmes na mente desses crentes judeus. Um judeu conservador não podia conversar com um gentio. Apenas se concebia que um judeu entrasse na casa de um gentio por algum motivo prático, mas era totalmente inaceitável que se sentasse para comer com ele.

Examinemos agora a expansão da igreja rumo aos gentios, destacando quatro ministérios importantes.

ATOS 11

Pedro explica a sua experiência

1 Os apóstolos e os outros seguidores de Jesus em toda a região da Judéia souberam que os não-judeus também haviam recebido a palavra de Deus. 2 Quando Pedro voltou para Jerusalém, aqueles que queriam que os não-judeus fossem circuncidados o criticaram, 3 dizendo: —Você ficou hospedado na casa de homens que não são circuncidados e até tomou refeições com eles!

Quando Pedro chegou a Jerusalém, um grupo cristão judaico ortodoxo atacou-o, por ter rompido a lei cerimonial de pureza. Lucas chama esse grupo da igreja de os que eram da circuncisão.

Parece estranho que Lucas introduzisse aqui esse grupo. Com a exceção dos gentios que haviam entrado na comunidade em Cesaréia, todos os crentes eram da circuncisão. Provavelmente, o autor, como um prelúdio ao Concilio de Jerusalém, desejasse chamar a nossa atenção para a existência de um grupo conservador, da igreja, que era extremamente farisaico, em sua aparência.

A acusação que é feita contra Pedro é que ele entrara na casa de um homem incircunciso e comera com ele. Parece que não houve oposição ao batismo dos gentios. Não obstante, a objeção estava implícita. Baseado na sua tradição legalista ferrenha, o partido da circuncisão não podia conceber a associação com um gentio, a não ser que ele fosse circuncidado. Essa tradição clamava que um gentio precisava primeiramente tomar-se judeu, antes de tomar-se cristão.

Tudo isto soa-nos insignificante, não é? Não temos nós sido culpados da mesma coisa no passado, e até no presente? Sempre que nos recusamos a comungar com outras pessoas, porque elas não tem a mesma cor de pele que temos ou não pertencem à nossa denominação, isso não é discriminação? O verdadeiro teste da fé cristã é comunhão à mesa. Se não podemos ter relação social com uma pessoa, a despeito da sua raça, classe ou cor, perdemos de vista a intenção de Deus.

Até nós, em termos cerimoniais, podemos estar inclinados a rejeitar algumas pessoas, da mesma forma como o fizeram os judaizantes. Eles fizeram, da circuncisão e do banho dos prosélitos, requisitos para a comunhão. Quando insistimos em concordância doutrinária acerca de assuntos, como certos pontos de vista acerca da Bíblia ou do reino ou de certas ordenanças da igreja, como teste de sanidade ou condição para a comunhão cristã, não estamos nós manifestando um espírito sectário aparentado ao dos judaizantes?

4 Então Pedro deu um relatório completo de tudo o que havia acontecido, desde o começo. Ele disse: 5 —Eu estava na cidade de Jope e lá, enquanto estava orando, tive uma visão. Vi uma coisa parecida com um grande lençol, que baixou do céu, amarrado pelas quatro pontas, e parou perto de mim. 6 Eu olhei para dentro daquilo com atenção e vi animais domésticos, animais selvagens, animais que se arrastam pelo chão e aves. 7 Depois ouvi uma voz, que me dizia: “Pedro, levante-se! Mate e coma! ” 8 Eu respondi: “Isso não, Senhor! Eu nunca comi nenhuma coisa que a lei considera suja ou impura! ” 9 Então a voz falou de novo do céu: “Não chame de impuro aquilo que Deus purificou. ” 10 Isso aconteceu três vezes, e depois tudo aquilo voltou para o céu.

A visão divina (11.5-10). Deus já estava preparando Pedro para romper seus preconceitos e escrúpulos judaicos. Em Jope, hospedou-se na casa de Simão, o curtidor (9.43).

Uma pessoa que trabalhava com couro e lidava com animais mortos era considerada impura e, a rigor, Pedro não poderia ficar em sua casa. Ainda mais, foi no alpendre dessa casa que Pedro teve a visão do lençol que desce do céu com animais imundos.

A visão tinha como propósito desarmar Pedro de seus escrúpulos judaicos, ou seja, quebrar a barreira cultural. O evangelho rompe barreiras e preconceitos. Por meio da visão. Deus falou com Pedro três vezes e ordenou-lhe expressamente não considerar imundo o que Deus havia purificado. Pedro, então, entendeu que os animais puros e imundos (uma distinção abolida por Jesus) simbolizavam pessoas puras e impuras, circuncisas e incircuncisas. O lençol é a igreja, que conterá todas as raças e classes sem distinção alguma.

11 Justamente naquela hora três homens que tinham sido mandados de Cesaréia para me buscar chegaram à casa onde eu estava hospedado. 12 E o Espírito de Deus me disse que fosse com eles, sem duvidar. Estes seis irmãos da cidade de Jope também foram comigo, e todos nós entramos na casa de Cornélio.

A ordem divina (11.11,12). Deus mesmo, que trabalhou no coração de Cornélio em Cesareia, estava trabalhando no coração de Pedro em Jope. Quando Pedro acabou de ter a visão, os mensageiros de Cornélio já estavam à porta da casa onde ele estava hospedado.

Nesse momento, o Espírito Santo ordenou que Pedro fosse com eles à casa de Cornélio sem hesitação ou distinção.

Pedro não podia mais resistir. A pregação do evangelho aos gentios era uma ordenança divina. A ordem não devia ser questionada ou adiada, mas obedecida imediatamente. Pedro ainda toma o cuidado de levar seis judeus que estavam com ele em Jope para testemunhar os acontecimentos na casa de Cornélio. Isso é significativo, porque segundo o costume da época eram necessárias sete pessoas para provar completamente um fato, e na lei romana eram necessários sete selos para autenticar um documento realmente importante, como um testamento
13 Então ele nos contou como viu na casa dele um anjo, em pé, que lhe disse: “Mande alguém a Jope para buscar Simão, que também é chamado de Pedro. 14 Ele vai dizer como você e toda a sua família podem ser salvos. ” 15 E Pedro continuou: —Quando comecei a falar, o Espírito Santo veio sobre eles, como tinha vindo sobre nós no princípio. 16 Aí eu lembrei que o Senhor Jesus tinha dito: “É verdade que João batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo. ” 17 De fato, os não-judeus receberam de Deus o mesmo dom que nós recebemos quando cremos no Senhor Jesus Cristo. E quem era eu para ir contra Deus?
18 Quando ouviram isso, eles ficaram sem ter o que dizer e louvaram a Deus, dizendo: —Então Deus deu também aos não-judeus a oportunidade de se arrependerem e ganharem a vida eterna!

Um resultado glorioso (11.18). Não apenas Pedro, mas também a igreja de Jerusalém foi convencida pelas evidências irrefutáveis. Eles pararam de criticar e passaram a louvar.

O relato de Pedro trouxe paz à igreja e glória ao nome do Senhor. Os crentes judeus reconheceram que aos gentios fora dado por Deus o arrependimento para vida. A salvação é endereçada a todos os povos, e o evangelho deve ser compartilhado com judeus e gentios.

A unidade da igreja. A igreja de Deus é multirracial e multicultural. Não podemos fazer distinção entre raças e culturas se Deus acolhe em sua igreja pessoas de todas as origens. Esse problema, entretanto, não foi facilmente resolvido na igreja do primeiro século. O próprio Pedro, mais tarde, mudou seu posicionamento nessa questão em Antioquia e precisou ser corrigido pelo apóstolo Paulo (G1 2.11-21).

Foi preciso um concilio em Jerusalém para tratar dessa matéria, visto que os judaizantes estavam pervertendo o evangelho e perturbando a igreja, ao exigir dos crentes gentios a prática da circuncisão para serem salvos (15.1,5). Não podemos aceitar na igreja de Deus nenhum tipo de discriminação, pois Deus não faz acepção de pessoas.

A igreja em Antioquia

19 Os seguidores de Jesus foram espalhados pela perseguição que havia começado com a morte de Estêvão. Alguns foram até a região da Fenícia, a ilha de Chipre e a cidade de Antioquia e anunciavam a palavra de Deus somente aos judeus. 20 Mas outros, que eram de Chipre e da cidade de Cirene, foram até Antioquia e falaram também aos não-judeus, anunciando a eles a boa notícia a respeito do Senhor Jesus. 21 O poder do Senhor estava com eles, e muitas pessoas creram e se converteram ao Senhor.
A perseguição que explodiu na cidade de Jerusalém em virtude da morte de Estêvão não fez a igreja retroceder. Ao contrário, como um vento impetuoso espalha as sementes, a perseguição espalhou os discípulos e, ao serem dispersos, eles não se acovardaram, mas saíram pregando a Palavra de Deus (8.4; 11.19). Esses evangelistas anônimos, em função da diáspora, avançaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia.

A Fenícia (o moderno Líbano) era a área que se estendia ao longo do litoral, numa faixa estreita desde o monte Carmelo, por uma distância de aproximadamente 242 km. Suas cidades principais eram Ptolemaida, Tiro, Sarepta e Sidom.

Chipre era o domicílio de Barnabé (4.36), um lugar que possuía um elemento judaico na sua população pelo menos desde o século II a.C. Foi o primeiro lugar a ser evangelizado por Barnabé e Paulo.

Antioquia, a capital da província romana da Síria, foi fundada por Selêuco Nicátor, chamado de Selêuco I por volta do ano 300 a.C., e recebeu o nome de Antioquia em homenagem ao seu pai, Antíoco. Ali havia uma grande população judaica.

Com cerca de meio milhão de habitantes, Antioquia era a terceira maior cidade do império romano, depois de Roma e Alexandria. Situada próximo da desembocadura do rio Orontes, a uns 24 km do mar Mediterrâneo, era uma cidade bela e cosmopolita, mas também sinônimo de imoralidade e luxúria, infestada de clubes noturnos. Era, outrossim, famosa pelo culto a Dafne, cujo templo estava a uns 8 km da cidade.Suas construções grandio¬sas contribuíram para que fosse chamada de “Antioquia, a Cidade Dourada, Rainha do Oriente”. Justo González diz que Antioquia era um centro para troca de ideias, cul¬turas, costumes e religiões.Sua rua principal tinha mais de 7 km de extensão; era calçada de mármore e ladeada de colunas desse mesmo material. Naquela época, era a única cidade do mundo antigo com iluminação noturna. Porto movimentado e centro de luxo e cultura, Antioquia

22 Essas notícias chegaram à igreja de Jerusalém, que resolveu mandar Barnabé para Antioquia. 23 Quando chegou lá e viu como Deus tinha abençoado aquela gente, Barnabé ficou muito alegre. E animou todos a continuarem fiéis ao Senhor, de todo o coração. 24 Barnabé era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E muitos se converteram ao Senhor.
25 Depois Barnabé foi até a cidade de Tarso a fim de buscar Saulo. 26 Quando o encontrou, ele o levou para Antioquia. Eles se reuniram durante um ano com a gente daquela igreja e ensinaram muitas pessoas. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, os seguidores de Jesus foram chamados de cristãos.

Mais uma vez as notícias alvissareiras da obra de Deus entre os gentios chegam a Jerusalém (11.1,22). A atitude da igreja não é interrogar esses agentes anônimos do reino, mas enviar a esse campo, que se abre para o evangelho, um obreiro experiente. É aqui que se inicia o decisivo ministério de Barnabé, a respeito do qual comentamos cinco pontos.

Em primeiro lugar, uma decisão sábia (11.22). A igreja de Jerusalém enviou a Antioquia não um apóstolo, mas Barnabé, o seu melhor pastor, um homem de alma generosa, um líder experiente, um judeu helenista com o melhor perfil e visão para alavancar a obra missionária entre os gentios.

Em segundo lugar, uma atitude importante (11.23). Barnabé não criou obstáculos para receber os gentios na comunhão da igreja nem ergueu muros de preconceito por causa de escrúpulos judaicos. Ao contrário, alegrou-se ao ver a graça de Deus prosperando e agindo na vida dos gentios e exortou todos a permanecerem firmes no Senhor. Barnabé era um líder entusiasmado com a obra de Deus.

Em terceiro lugar, uma vida atraente (11.24). A vida de Barnabé era a base de sustentação do seu ministério. Ele estava sempre investindo na vida das pessoas. Era um homem bom. Estava vazio de si mesmo e cheio do Espírito. Caminhava não segundo seu entendimento, mas pela fé. O resultado é que muita gente se uniu ao Senhor. O evangelho, quando adornado pelo exemplo, produz resultados excelentes. A ortodoxia precisa ser revestida de piedade. John Stott diz que o verbo grego prostithemi, traduzido por se uniu no versículo 24, tornou-se uma palavra quase técnica para Lucas descrever o crescimento da igreja (2.41; 2.47; 5.14)

Em quarto lugar, um gesto humilde (11.25). Barnabé não apenas construiu a ponte de contato entre a igreja gentílica e a igreja judaica, mas também buscou em Tarso o homem que se tornaria o maior bandeirante do cristianismo. Barnabé já havia investido em Paulo quando todos o desprezaram em Jerusalém. Sabia do seu chamado aos gentios. Abriu mão de sua primazia na obra missionária entre os gentios e buscou alguém mais capacitado do que ele para assumir essa liderança. Barnabé não hesitou em procurar Paulo e colocá-lo no centro do palco da obra missionária.

Essa experiência nos remete ao que aconteceu com Guilherme Farei e João Calvino em Genebra. Farei convidou Calvino para permanecer em Genebra e ajudá-lo na obra de evangelização. Calvino recusou a princípio, mas depois aquiesceu, e ali ambos realizaram um grande trabalho, que se tornou modelo para o mundo inteiro. Farei abriu mão de sua primazia, e Calvino tornou-se o grande líder da reforma naqueles tempos.

Em quinto lugar, um resultado extraordinário (11.26). Barnabé encontrou Paulo, levou-o consigo para Antioquia e naquela igreja ensinaram uma multidão imensa durante todo um ano. Como resultado, os crentes gentios passaram a imitar de tal forma a Jesus que foram apelidados de cristãos, gente parecida com Cristo. Até agora, Lucas se referia a eles como discípulos (6.1), santos (9.13), irmãos (1.16; 93G), fiéis (10.45), os que estavam sendo salvos (2.47) e os seguidores do Caminho (9.2). Agora, Lucas passa a chamá¬-los de cristãos (11.26).^^^

27 Naquele tempo alguns profetas foram de Jerusalém para Antioquia. 28 Um deles, chamado Ágabo, levantou-se e, pelo poder do Espírito Santo, anunciou: —Haverá uma grande falta de alimentos no mundo inteiro. Isso aconteceu quando Cláudio era o Imperador romano. 29 Então os cristãos resolveram mandar ajuda aos irmãos que moravam na região da Judéia, e cada um deu de acordo com o que tinha. 30 E mandaram o dinheiro por meio de Barnabé e Saulo, para que eles o entregassem aos presbíteros da igreja.

Na igreja primitiva havia profetas e mestres. Naqueles dias, alguns profetas desceram de Jerusalém a Antioquia e entregaram uma importante mensagem ao povo.

Destacamos aqui três pontos dessa mensagem.

Em primeiro lugar, uma profecia urgente (11.27,28). Movido pelo Espírito Santo, Ágabo profetizou um período de grande fome por todo o mundo, a qual sobreveio nos dias do imperador Cláudio, que reinou de 41 a 54 d.C. Esse fato foi amplamente documentado pelos historiadores. Uma das regiões mais atingidas por essa fome foi a Judeia, especialmente porque, no tempo de Cláudio, todos os judeus foram expulsos de Roma (18.2) e retornaram à Judeia sem suas casas, suas terras e seus bens. Essa fome atingiu de cheio a igreja de Deus na região da Judeia.

Conforme Warren Wiersbe, os escritores da Antiguidade citam pelo menos quatro grandes fomes: duas em Roma, uma na Grécia e outra na Judeia. A escassez de alimentos na Judeia foi especialmente grave e, de acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, muitas pessoas morreram por falta de recursos para comprar a pouca comida que havia disponível.

Em segundo lugar, uma generosidade concreta (11.29). Os crentes gentios nem mesmo esperaram o cumprimento da profecia e, conforme suas posses, levantaram uma oferta para socorrer os irmãos que moravam na Judeia. Eles ajudaram pessoas que não conheciam pessoalmente. A fé cristã não abre apenas nosso coração para crer, mas também nosso bolso para contribuir. Recebemos não apenas a graça da salvação, mas também a graça da contribuição.

A generosidade não é causa da salvação, mas sua conseqüência. A igreja de Jerusalém enviara Barnabé a Antioquia; agora, a igreja de Antioquia envia Barnabé, com Paulo, de volta a Jerusalém. Paulo destacará a importância desse gesto ao escrever: Isto lhes pareceu bem, e mesmo lhes são devedores; porque, se os gentios têm sido participantes dos valores espirituais dos judeus, devem também servi-los com bens materiais (Rm 15.27).

Em terceiro lugar, uma atitude sensata (11.30). Os crentes gentios enviaram socorro aos crentes judeus, mas esses recursos foram endereçados aos líderes da igreja de Jerusalém, os presbíteros, e levados pelos líderes que trabalhavam entre eles, Barnabé e Saulo. Em outras palavras, houve transparência no trato da matéria. Eles lidaram com a questão das ofertas com absoluta lisura e honestidade.

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